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Guia gratuito · Redação Enem

Como escrever uma redação nota 1000, em 5 partes

Nota 1000 não é talento: é cumprir, sem deixar nada de fora, o que cada uma das cinco competências cobra. Este guia mostra o que é, parte por parte — com as dúvidas que mais aparecem respondidas no fim de cada uma.

Parte 1 · Competência 2

Ler o tema sem cair na armadilha do recorte

Todo tema do Enem tem duas camadas. O assunto é o território amplo — saúde mental, moradia, tecnologia. O recorte é o pedaço exato desse território que a banca quer ver discutido. Em “Caminhos para o cuidado com a saúde mental da juventude brasileira”, o assunto é saúde mental; o recorte é caminhos para o cuidado, juventude e Brasil.

Quem escreve só sobre o assunto tangencia o tema: o texto até parece certo, mas fala de outra coisa. Na correção, isso derruba a Competência 2 para 40 pontos e arrasta a argumentação e a proposta junto, porque ambas passam a responder a uma pergunta que não foi feita.

O método em três passos

  • Sublinhe as palavras do recorte na frase-tema. São elas que não podem faltar.
  • Escreva sua tese antes do texto, numa frase que contenha todas essas palavras.
  • Confira cada parágrafo contra a tese quando terminar. Parágrafo que não conversa com ela sai ou é reescrito.
Cuidado com os textos motivadores. Eles servem de ponto de partida, não de fonte pra copiar. Linhas copiadas são desconsideradas na contagem — e, se o que sobrar tiver até 7 linhas, a redação recebe zero.
Perguntas e respostas
O que é fugir do tema, e qual a diferença pra tangenciar?

Fugir é escrever sobre outro assunto — e zera a redação inteira. Tangenciar é escrever sobre o assunto certo ignorando o recorte: não zera, mas limita a Competência 2 a 40 pontos. Das duas, a segunda é muito mais comum e passa despercebida por quem escreve.

Preciso falar do Brasil mesmo quando o tema não diz “no Brasil”?

Quase sempre o recorte é brasileiro, dito ou não. Um exemplo de outro país pode entrar como comparação, mas o problema discutido — e a proposta — precisam ser sobre a realidade brasileira.

E se eu não souber nada sobre o tema?

Os textos motivadores existem pra isso: releia e extraia deles o problema, uma causa e uma consequência. Somando isso a conceitos que você já tem de outras disciplinas — cidadania, desigualdade, direitos —, dá pra construir um texto sólido mesmo sobre um tema que você nunca estudou.

Posso usar uma frase dos textos motivadores?

Pode citar um trecho curto, entre aspas e comentado, como faria com qualquer fonte. O que não pode é montar a redação colando pedaços deles: isso não conta como texto seu.

Parte 2 · Competências 2 e 3

A introdução que já anuncia a nota

O corretor forma uma primeira impressão do seu texto nas primeiras cinco linhas. Uma introdução forte faz três coisas, nesta ordem: contextualiza o problema, apresenta o tema com o recorte e anuncia a tese — o seu ponto de vista e os dois caminhos pelos quais você vai defendê-lo.

Exemplo · tema da moradia A Constituição Federal de 1988 incluiu a moradia entre os direitos sociais. Na prática, porém, a garantia do direito à moradia digna no Brasil ainda enfrenta obstáculos, seja pela especulação imobiliária, que mantém imóveis vazios nas áreas centrais, seja pela ausência de uma política habitacional contínua, que empurra a população mais pobre para áreas de risco.

Repare no desenho: a primeira frase contextualiza com um repertório; a segunda traz o tema com o recorte (“direito à moradia digna no Brasil”) e já anuncia os dois argumentos — especulação e falta de política contínua. O leitor sabe, antes do segundo parágrafo, exatamente o que vem pela frente. Isso é projeto de texto, e é o que a Competência 3 procura.

Perguntas e respostas
Quantas linhas deve ter a introdução?

Entre quatro e seis linhas é o ponto de equilíbrio. Menos que isso costuma deixar a tese de fora; mais que isso rouba espaço dos argumentos, que é onde a nota se decide.

O que é a tese, exatamente?

É a sua resposta ao problema, em uma frase. Não é o tema repetido: é a posição que você vai defender. “A moradia é um problema” não é tese; “o direito à moradia não se cumpre por causa da especulação e da falta de política contínua” é.

Preciso começar com uma citação?

Não é obrigatório. Um repertório na introdução ajuda a contextualizar, mas só vale se estiver ligado ao tema. Citação decorada que serviria pra qualquer redação — a famosa “de bolso” — não impressiona ninguém.

Posso começar com uma pergunta?

Pode, mas é arriscado: pergunta retórica sem resposta enfraquece a tese. Uma afirmação clara quase sempre rende mais.

Parte 3 · Competências 2 e 3

Desenvolvimento: argumento que prova, não que enfeita

Cada parágrafo de desenvolvimento defende um dos caminhos anunciados na introdução. A estrutura que funciona tem quatro movimentos:

  • Tópico frasal: a primeira frase diz qual é o argumento.
  • Explicação: por que isso acontece — causa, consequência, mecanismo.
  • Repertório: um fato, lei, dado, pensador ou obra que prova o que você explicou.
  • Fechamento: uma frase que liga o parágrafo de volta à tese.

Para a Competência 2 chegar a 200, o repertório precisa ser legitimado (vem de uma área do conhecimento), pertinente (tem a ver com o tema) e produtivo (é usado no argumento, não só citado). A diferença entre 160 e 200 quase sempre está nesse último ponto: dizer, com as suas palavras, o que aquela referência prova.

Repertório produtivo Segundo o geógrafo Milton Santos, o espaço urbano reflete as desigualdades de quem o produz. É exatamente o que se vê nas metrópoles brasileiras: enquanto áreas centrais concentram infraestrutura e imóveis ociosos, a periferia cresce sem saneamento — prova de que o déficit habitacional não é falta de espaço, mas de acesso.
Perguntas e respostas
Quantos parágrafos de desenvolvimento?

Dois, bem desenvolvidos, é o formato que mais rende no espaço de 30 linhas. Três parágrafos curtos costumam ser três argumentos pela metade.

Que tipo de repertório vale mais?

Nenhum tipo vale mais por si só. Uma lei bem usada vale tanto quanto um filósofo bem usado. O que pesa é a ligação com o argumento. Variar os tipos entre os parágrafos — uma lei num, um pensador no outro — mostra repertório amplo.

Posso usar um exemplo da minha vida?

Como ilustração, pode. Mas ele não substitui o repertório legitimado, porque não vem de uma área do conhecimento. Se usar, que seja para complementar, não para sustentar o argumento sozinho.

Posso escrever em primeira pessoa?

Não é proibido, mas o texto dissertativo ganha força na impessoalidade. “Nota-se que” e “é evidente que” funcionam melhor que “eu acho”, que ainda soa informal na Competência 1.

Parte 4 · Competências 1 e 4

Coesão e norma culta sem decoreba

Coesão é o que faz o texto andar sem trancos. Ela acontece em dois níveis: entre os parágrafos, com uma expressão que abre cada um amarrado ao anterior (“Além disso,”, “Nesse sentido,”, “Diante disso,”), e dentro deles, com conectivos que mostram a relação entre as ideias — causa, oposição, consequência.

A outra metade da coesão é a retomada: em vez de repetir “desinformação” oito vezes, alterne com “esse fenômeno”, “tal problema”, “a circulação de notícias falsas”. Repetição em excesso derruba a Competência 4 mesmo com bons conectivos.

Os desvios que mais custam ponto na Competência 1

  • Acentuação (não, também, através, até) e o til ou a cedilha das terminações em “-ção”.
  • Crase, concordância verbal e regência.
  • Vírgula entre sujeito e verbo, e frases longas demais sem pontuação.
  • Marcas de fala: “pra”, “a gente”, “tipo”, abreviações.
Perguntas e respostas
Quantos conectivos preciso usar?

Não há número mágico. O que a banca procura é variedade e uso correto: um conectivo abrindo cada parágrafo e dois ou três dentro de cada um já dão ao texto a amarração esperada. Conectivo com sentido errado — “portanto” onde cabia “entretanto” — é pior do que nenhum.

Posso começar um parágrafo com “E” ou “Mas”?

Evite. Não é erro gramatical, mas no registro formal soa brusco. “Além disso” e “Contudo” cumprem o mesmo papel com mais elegância.

Letra de forma ou cursiva?

As duas são aceitas. O que importa é a legibilidade e a diferença clara entre letra maiúscula e minúscula — sem isso, o corretor não tem como avaliar a pontuação e o início das frases.

Como corrigir um erro na folha de redação?

Passe um traço simples sobre a palavra e escreva a correta em seguida. Não use corretivo, e evite rasuras grandes: elas atrapalham a leitura.

Parte 5 · Competência 5

A proposta de intervenção completa

É a competência mais previsível da prova — e, mesmo assim, onde mais gente perde ponto. A proposta vale até 200 pontos, divididos em cinco elementos de 40 cada. Faltou um, perdeu 40, por melhor que seja o resto.

AgenteQuem vai fazer
AçãoO que vai ser feito
MeioComo vai ser feito
FinalidadePara quê
DetalhamentoUma informação a mais sobre qualquer um deles
Os cinco elementos numa frase O Ministério da Educação, órgão responsável pelas diretrizes do ensino básico, deve incluir a educação midiática no currículo, por meio de oficinas práticas de checagem de fatos nas escolas públicas, a fim de formar leitores capazes de identificar notícias falsas.

A proposta precisa responder ao problema que você discutiu, não a um problema genérico. Se o seu desenvolvimento falou de especulação imobiliária, a proposta tem que atacar a especulação — é essa amarração que mostra coerência do começo ao fim.

Direitos humanos. Proposta que defenda violência, tortura, pena de morte, discriminação ou qualquer solução que fira a dignidade humana recebe zero na Competência 5.
Perguntas e respostas
A proposta precisa ser original?

Não. Ela precisa ser completa, viável e ligada ao que você discutiu. Uma proposta simples com os cinco elementos vale mais do que uma ideia brilhante com três.

Posso fazer mais de uma proposta?

Pode, e é comum. A banca avalia a proposta mais completa — então capriche em pelo menos uma, com os cinco elementos, em vez de espalhar elementos soltos por várias.

O que conta como detalhamento?

Qualquer informação a mais sobre um dos elementos: explicar quem é o agente (“órgão responsável por...”), exemplificar a ação (“como campanhas em escolas”) ou desdobrar a finalidade. Basta um, bem feito.

“O governo deve investir em educação” conta como proposta?

Conta, mas vale pouco: tem agente e ação, e as duas são vagas. Falta dizer qual parte do governo, investir em quê exatamente, por qual meio e com qual finalidade. É a diferença entre 80 e 200.

Agora é praticar.

Escreva sobre um dos 8 temas e veja, na hora, em qual dessas cinco partes a sua redação perde ponto.

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